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sexta-feira, 21 de março de 2014

Acreditar, mesmo quando ninguém mais acredite.

Talvez o tempo, por si só, explique a cada um de nós o que é necessário para a felicidade. Talvez a felicidade seja sempre outra coisa que em cada idade se revela para que nos esforcemos de novo, continuamente. Há um amor guardado para cada fim. No limite, já não podemos adiá-lo. Temos de amar sem olhar a quem até que, olhando, o perfeito desconhecido nos seja familiar. Até que se invente uma família, tão pura e fundamental quanto outra qualquer. A felicidade, afinal, é possível, embora se esconda atrás de um mundo de tristezas. Mas nenhuma tristeza nos deve vencer. O destino de cada um é só este: acreditar, mesmo quando ninguém mais acredite.

Valter Hugo Mãe in "O Filho de Mil Homens"

terça-feira, 18 de março de 2014

O sofrimento é opcional...

“A cada dia que vivo mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 13 de março de 2014

Porque a minha força...

Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra.
Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal.

José Luís Peixoto

terça-feira, 11 de março de 2014

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.
...

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,

Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

António Gedeão

segunda-feira, 10 de março de 2014

Dá-me tempo de acertar nossas distâncias...

Quero ser o teu amigo.
Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso: é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo de acertar nossas distâncias

Fernando Pessoa

quinta-feira, 6 de março de 2014

Tu já me arrumaste no armário dos restos...

Tu já me arrumaste no armário dos restos
eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
e das nossas memórias começamos a varrer
as pequenas gotas de felicidade
que já fomos.
Mas no tempo subjectivo
tu és ainda o meu relógio de vento
a minha máquina aceleradora de sangue
e por quanto tempo ainda
as minhas mãos serão para ti
o nocturno passeio do gato no telhado?


Isabel Meyrelles

quarta-feira, 5 de março de 2014

O que custa...

O que custa mais não é tanto lembrar - é não esquecer. O que é que se faz com o que nos fica na cabeça, quando já não há nada para fazer.

Miguel Esteves Cardoso, O Amor é Fodido

domingo, 2 de março de 2014

Com estas palavras...

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.


Eugénio de Andrade

sábado, 1 de março de 2014

Quanto mais longe, mais perto me sinto de ti...

Quanto mais longe, mais perto me sinto de ti, como se os teus passos estivessem aqui ao pé de mim e eu pudesse seguir-te e falar-te e dizer-te quanto te amo e como te procuro, no meio de uma destas ruas em que te vejo, zangado de saudade, no céu claro, no dia frio. Devolve-me a minha vida e o meu tempo. Diz qualquer coisa a este coração palerma que não sabe nada de nada, que julga que andas aqui perto e chama sem parar por ti.

Miguel Esteves Cardoso, O Amor é Fodido

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

...sentes esse cansaço, nada a fazer.

Envelheces tanto de cada vez que o dia termina e olhas para trás.
Tens medo do começo do fim, das tardes de domingo; um dia, distraído, tens medo do sexo, da amabilidade e da noite, e dos rostos que foram belos – e não são mais.
Envelheces muito quando o mundo contraria as pequenas coisas, sentes esse cansaço, nada a fazer.

Francisco José Viegas

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Prefiro redesenhar as nossas cicatrizes...

Ouvia-te falar e sentia
as chamas retomarem
as paredes do teu coração
de igreja abandonada.
O céu, nessa tarde,
era um leque de lantejoulas...

ao rés do teu sorriso
e dos meus olhos encadeados.
Doía-me esse excesso de luz
que te fazia toda sombra,
o crepitar morno da pele
antes do incêndio consumado.

Sempre que dizias o seu nome,
riscavas outro fósforo –
ele avançava dentro de ti,
nas mãos uma vela prestes a cair.
Amo demasiado o fogo
para a suster. Prefiro
redesenhar as nossas cicatrizes,
ser depois a memória da pedra
fria em pleno Verão.

Inês Dias
in "Em caso de tempestade este jardim será encerrado"
Tea For One, Lisboa, 2011.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Pois é...

- Dói tanto.
- É insuportável.
- Mas aguenta-se.

O pior da vida é haver coisas insuportáveis que mesmo assim se aguentam.

"In Sexus Veritas", de Pedro Chagas Freitas

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Dou voltas no vazio...

Um minuto sobre o lado esquerdo.
Um minuto sobre o lado direito.
Um pouco de costas,
um segundo sobre o ventre.
Dou voltas no vazio.
Frio nos meus sonhos,
frio na minha cama.
Os ladrões de sono saquearam a minha noite,
um deles teve pena de mim...
e deixou-me a manhã
na mesa-de-cabeceira.


Maram-Al-Masri

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Sete Letras

Esta palavra Saudade
Sete letras de ternura
Sete letras de ansiedade
E outras tantas de aventura

Esta palavra saudade
A mais bela e a mais pura...
Sete letras de verdade
E outras tantas, de loucura

Sete pedras, sete cardos
Sete facas e punhais
Sete beijos que são dados
Sete pecados mortais

Esta palavra saudade
Dói no corpo devagar
Quando a gente se levanta,
fica na cama a chorar

Esta palavra saudade
Sabe a sumo de limão
Tem um travo de amargura,
Que nasceu no coração

Ai palavra amarga e doce
estrangulada na garganta
Palavra com se fosse
o silêncio, que se canta

Meu cavalo imenso e louco
a galopar na distância
Entre o muito e entre o pouco,
que me afasta da infância

Esta palavra saudade
é a mais prenha de pranto,
como um filho que nascesse
Por termos sofrido tanto

Por termos sofrido tanto
É que a saudade está viva
São sete letras de encanto
Sete letras por enquanto,

Enquanto a gente for viva

Esta palavra saudade
sabe ao gosto das amoras
Cada vez que tu não vens,
cada vez que tu demoras

Ai palavra amarga e doce,
debruçada na idade
Palavra como se fossemos
resto de mocidade

Marcada por sete letras
a ferro e a fogo no tempo
Ai, palavra dos poetas
que a disparam contra o vento

Esta palavra saudade
dói no corpo devagar
Quando a gente se levanta
fica na cama a chorar

Por termos sofrido tanto
É que a saudade está viva
São sete letras de encanto
Sete letras por enquanto,

Enquanto a gente for viva

Ary dos Santos

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Isto agora demora...

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor...

Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora.

Manuel António Pina

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Quase

Um pouco mais de sol — eu era brasa.
Um pouco mais de azul — eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d'espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho — ó dor! — quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim — quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
— Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... —
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
               
Mário de Sá-Carneiro
(Paris, 13 de maio de 1913)



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

"Estou a fazer-te luto..."

"as pessoas morrem nunca partem de nós, eu separei-te de mim, cortei-te-me. em cinemas imaginários filmados por mãos iluminadas usei teu corpo. coloquei o deserto do teu coração rente à minha boca. lavaram-me o desespero as lágrimas que choravas no escuro. parti-te. estou a fazer-te luto. desejei-te tanto. discuti-te tanto contigo. agora percebo que te atirei demais contra tantos poemas. agora encontramo-nos. eu tenho de colar-te os restos para conseguir ver-te para além do que trago molhado nos olhos, acabou o passeio no meu jardim interior, pleno de estátuas quebradas, as noites acabo sempre assim, abraçado ao rosto restos da pedra, agradecendo-lhe as imagens."

Pedro Sena-Lino

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Se ao menos essa dor sangrasse...

Se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos
se ao menos esta dor visse
se ela saltasse fora da garganta
como um grito
caísse da janela fizesse barulho...

morresse
se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir saliva fora
sujar a saliva fora
sujar a rua os carros o espaço o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre e tem o direito de não sofrer
se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas
se ao menos essa dor sangrasse...

Renata Pallottini

 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Pensamento do dia...

"Uma mulher com a cabeça no teu ombro pode ser o suficiente para a vida valer a pena. E é."

in "O Livro dos Loucos", de Pedro Chagas Freitas

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Pensamento do Dia...

Em rascunho desde 25-10-2013, hoje parece-me fazer todo o sentido...

“O que revela a nossa força não é sermos imbatíveis, incansáveis, invulneráveis. É a coragem de avançar, ainda que com medo. É a vontade de viver, mesmo que já tenhamos morrido um pouco ou muito, aqui e ali, pelo caminho. É a intenção de não desistirmos de nós mesmos, por maior que às vezes seja a tentação. São os gestos de gentileza e ternura que somente os fortes conseguem ter”.

 Ana Jácomo